Dançarinos já são maioria na cena bregafunk, mas ainda é das meninas o maior reconhecimento midiático

Quem divide o palco com Feijão é Biscoito, nome artístico de Thiago dos Santos Rocha, 30, e Murilo Sales, o Bolacha. Foto: Marlon Diego/Esp.DP

Feijão, o dançarino de bregafunk, deixou um quartinho apertado no bairro de Jardim Brasil, em Olinda, e mudou-se para um apartamento de dois quartos, sala e cozinha em um condomínio confortável no Janga, perto do mar, em Paulista. No guarda-roupa, acumula pares de óculos de sol, roupas apropriadas para shows, relógios e pares de tênis. “Ostentação” jamais imaginada por quem contava apenas com um colchão e um ventilador velhos nos tempos de escassez vividos na periferia olindense.

No documento de identidade, Feijão é Igor Sulivan Silva de Oliveira, 24 anos. Ele é o tal Neguinho da Dança, anunciado com ares de pompa pelos mestres de cerimônias (MCs) nas casas de bregafunk pernambucanas. Um ídolo no topo da carreira. Querido entre os amantes do brega produzido nas periferias. Meninos talentosos e bem-sucedidos na dança como Feijão já são maioria entre o corpo de dançarinos arregimentado pelos MCs. Mas ainda é das meninas o tão almejado reconhecimento midiático, principalmente nas redes sociais.

Feijão conheceu a dança no extinto projeto Escola Aberta. A iniciativa, uma parceria da Unesco com o Ministério da Educação, implantada em 2004, teimava em manter as unidades públicas em funcionamento nos finais de semana com oferta de atividades culturais para os jovens do entorno. O menino tinha 12 anos quando deixou de lado o desejo de enriquecer com o futebol para dançar. Virou referência. Estrategicamente, ele aproveitou a brecha aberta anos depois por outro dançarino, o Tomzão, do MC Japão, para adentrar de vez no bregafunk. Começou com o MC Menor, em 2014, até conhecer o MC Cego, com quem se apresenta até hoje. “Se você tem um sonho, não desista. Siga em frente que o caminho é reto, não faz curva”, diz o jovem, casado há três anos e pai de uma menina com cinco meses.

Dançarino Feijão. Foto: Marlon Diego/Esp.DP

Quem divide o palco com Feijão é Biscoito, nome artístico de Thiago dos Santos Rocha, 30, e Murilo Sales, o Bolacha. Biscoito também tirou da dança ofertada no Escola Aberta um salto para melhorar a condição financeira. Tem apartamento próprio no Janga e moto graças ao cachê obtido nos palcos. Deixou o karatê para dançar. Primeiro suingueira e tecnobrega, onde conheceu os colegas, até chegar ao bregafunk. “Antes eu não tinha nem R$ 15 para sair. Muitos caras disseram que a gente era bicha, mas é inveja. Dariam tudo para estar no lugar da gente. Se não fosse a dança, eu estaria em coisa errada. O lugar onde morava puxava muito para o mal. A dança só trouxe coisas boas para mim, mudou minha vida financeiramente, me deu boas amizades.”

A madrugada de segunda-feira costuma encher de fãs de bregafunk a casa de shows Espaço Aberto, na Imbiribeira. Nesta data, quem se apresenta é Dadá Boladão e seus três dançarinos. “O fato de ter só homem no corpo de dançarinos é porque o público da gente é mais feminino. No instagram, 61% de nossos seguidores são mulheres”, justifica Dadá, morador de Peixinhos, em Olinda.

Dan Lisboa, 29, o Maluquinho, é o mais experiente entre os dançarinos de Dadá. Ele lembra que, no começo, os MCs somente se apresentavam com meninas ou casais, mas isso foi mudando com o “estouro” de Feijão. “Também tem a disponibilidade de horário. Para as meninas termina sendo mais arriscado ficar essa hora da madrugada em um ponto de encontro esperando o carro do grupo passar para pegar elas ou mesmo se locomover para esses pontos, por exemplo”, explica Dan.

Igor Martins, 19, o Romano e Jeferson Silva, 21, o Gmove, completam o time de Dadá. Entre eles, as histórias de uma infância difícil do ponto de vista financeiro se repetem. Jeferson mora até hoje em Chão de Estrelas, no Recife, onde conheceu a dança também através de um projeto social no Daruê Malungo. Hoje, mais do que nunca, ajuda no sustento da casa. O sonho dele é conhecer outros países trabalhando com a dança. Igor queria impressionar as meninas. Mas não sabia dançar. Aprendeu, melhorou a autoestima e hoje se sente um jovem vaidoso e admirado. “Antes não ligava para roupa e nada disso.”

Eles são explosão e rebolado

Na prática, existe diferença entre a dança dos homens e das mulheres? No palco, os meninos costumam dizer que usam mais explosão na dança, mais técnica. “Tem que ter força e ao mesmo tempo a sensualidade que o brega pede”, reflete Dan. “Os meninos usam mais rebolado, quebradeira, suingado. A menina é mais quebradeira de chão, charme. Há uma diferença enorme”, completa Feijão.

A universitária Laís Siqueira, 20, frequenta as casas de brega de Olinda e Recife. Para ela, refletir sobre a questão de gênero na dança é importante. “Gosto de ver os meninos dançando porque os holofotes saem da hipersexualização do corpo das meninas”, ressalta.
As dançarinas têm muito mais seguidores no instagram que os meninos. Dani Costa, do MC Troinha, tem 598 mil seguidores. Dan Lisboa, entre os homens, está em primeiro lugar, com 23,7 mil seguidores.

Como são campeãs de admiradores nas redes sociais, são as meninas o foco de parcerias de marketing propostas por restaurantes, salões de beleza, lojas de roupas e acessórios, academias de ginástisca e uma infinidade de serviços. A participação deles termina limitada nessas divulgações porque nem todos os produtos são de uso masculino.

Outra vantagem é que, se entre os meninos a maioria dos fãs é o público feminino, as dançarinas atraem tanto homens quanto mulheres. As postagens das dançarinas transformam-se automaticamente em lucro para as empresas. O benefício para elas está em não pagar pelos serviços que ajudam a propagar e no recebimento de cachês em alguns casos. “Estamos aí para fazer parcerias também”, avisa Feijão, já pensando em navegar por outros mares. Afinal, como diz, o caminho é reto e não faz curva.

Fonte: DP