Mesmo sem patrocínio, Métron Produções começa neste fim de semana a 15ª edição de seu festival voltado às crianças, que segue até o fim de julho

A experiência teatral alimenta a alma e provoca reflexões em todas as idades, mas tem um impacto potencializado quando acriança é o público das apresentações. O contato com as artes cênicas contribui para a maneira como os pequenos se relacionam com o mundo e leva à construção de plateias futuras, consolidando a existência do teatro como um todo. 

Apesar de sua importância, o segmento do teatro infantil vem enfrentando problemas, embora algumas iniciativas teimosas persistam (caso do Festival de Teatro para Crianças de Pernambuco, que abre sua programação neste fim de semana e está completando 15 edições). 

Pernambuco sempre foi um celeiro do teatro infantil, uma referência nacional de local onde se faz produções de qualidade e espetáculos que marcam época”, aponta Toni Rodrigues, da Cênicas Cia de Repertório. Junto com as companhias Fiandeiros, Humantoche, Mão Molenga e 2 Em Cena, o grupo vem investindo no segmento infantil, embora não seja voltado apenas para ele.

“Aqui na Cênicas, atualmente temos quatro espetáculos infantis em nosso repertório: ‘Pinóquio e suas desventuras’, ‘Pluft – O fantasminha’, ‘Era uma vez um rio’ e estamos estreando ‘O segredo da arca de Trancoso’, durante o Festival, no próximo dia 28”, enumera.

Além da estreia desta peça, neste mês de férias a Métron Produções (organizadora do Festival de Teatro para Crianças de Pernambuco) vai trazer, entre montagens com perfil mais experimental e autoral e outras que optam por textos mais conhecidos, outras 14 peças locais diferentes, que vão ser apresentadas em quatro teatros (Santa Isabel, Luiz Mendonça, Barreto Júnior e Roberto Costa), a preços reduzidos (R$ 30, a inteira e R$ 15, a meia-entrada), e também de graça, no teatro Joaquim Cardozo (núcleo da UFPE na rua Benfica), ampliando a oportunidade para todas as classes sociais. 

“O evento tem uma aceitação muito boa. Quanto às peças, nossa proposta é um retrato do que acontece em Pernambuco. Se tem uma safra boa de produções, isso se reflete no festival”, explica Ruy Aguiar, um dos organizadores. Em 2018, a Métron não conseguiu patrocínio e por isso não trouxe espetáculos de fora do Recife, como chegou a fazer em anos anteriores. Ainda assim, o evento continuou.

“É um projeto que congrega muitas pessoas e que foi concebido não só para incrementar o mercado, mas para incentivar a vivência da arte. O mais bonito de se ver é a acolhida do público. As pessoas precisam de cultura, de ter sua cidadania resgatada”, destaca por sua vez Edivane Bactista, que também está à frente do festival.

Ela relembra que o evento surgiu em 2004, por influência de Marco Camarotti (professor, ator e encenador pernambucano já falecido), com a proposta de fomentar trocas e ajudar a escoar as produções. De lá para cá, houve mudanças no mercado. “Além da falta de verba e espaço nos teatros, precisamos competir com outros eventos, porque a quantidade de opções no Recife, até mesmo gratuitas, é muito grande. Mas, quando o público se encanta, ele vem”, afirma.

“Há dificuldades na realidade local, e elas não nascem na arte”, pontua o ator e dramaturgo Luiz Felipe Botelho. “Em termos de produção e capacidade criativa, vejo novas coisas acontecendo. A questão é que a crise econômica tem repercutido na cultura, e vivenciamos um momento muito esquisito. Tenho 58 anos e nunca vi uma situação tão grave, em todos os níveis. Uma conjunção de descaso, falta de representatividade e ausência de diálogo”, lamenta. 

Mesmo diante deste cenário desolador, ele diz que “há brasas embaixo dessa cinza” e que as pessoas que fazem o teatro não deixam de produzir e o público, de se interessar. “A finalidade da arte é fazer com que nós nos aprofundemos no que somos. Aprender sobre a vida, sobre a sensibilidade, para que a gente possa sempre descobrir como ir além de nós mesmos e na relação com os outros”, destaca. Homenageado desta edição do Festival de Teatro para Crianças, Luiz Felipe é autor premiado de várias peças voltadas para o público infantil. A mais recente é justamente “O Segredo da Arca de Trancoso”, produzida pela companhia Cênicas.

Entre o lúdico e o ‘talk show de personagens’ 
Arriscar ou apostar no conhecido? A escolha do texto das peças infantis é, muitas vezes, uma questão controversa. Diante de uma conjuntura desfavorável, com dificuldades de obter patrocínio e sem ter certeza da resposta do público, optar pela montagem de um clássico pode ser uma saída menos temerária. Ainda assim, isso não significa que a peça tenha menor qualidade que as montagens mais experimentais. 

Para quem ama a arte teatral, o grande consenso é se posicionar contra o que chamam de ‘talk shows de personagens’, que não investem na dramaturgia nem na pesquisa, e simplesmente reproduzem no palco as cenas a que as crianças costumam assistir na televisão ou no YouTube.

“Esse tipo de produção mercantilista não é arte. Claro, todos precisam receber remuneração pelo seu trabalho, todos buscamos o sucesso. Mas essa não deveria ser a prioridade do artista. É absurdo quando a arte coloca o comércio em primeiro lugar. E é triste ver que as pessoas acabam sendo levadas a enxergar algo de importante naquilo. Muitos pagam caro e vão assistir a esses espetáculos sem refletir, sem sequer gostar do que vêem, apenas para se sentirem incluídos”, critica o dramaturgo Luiz Felipe Botelho.

“Infelizmente tem muita gente apelando para esse filão, usando esse expediente fácil para ganhar dinheiro às custas das crianças e de suas famílias. Claro, existe espaço para todo tipo de produção, não dá para se querer controlar. Mas são espetáculos que entretêm mas não acrescentam nada à experiência de quem os assiste”, lamenta por sua vez o ator e diretor Toni Rodrigues. “O que nos dá esperança é saber que existe, sim, mercado para trabalhos de maior qualidade, que resgatam o lúdico e não tratam a criança como algo menor”.

Programação 
Teatro de Santa Isabel (Praça da República, , 233 – Santo Antônio, Recife – PE)
Abertura : “Os Saltimbancos” (30/6 e 1º/7)
As aventuras de Mané Gostoso (07/07 e 08/07)
Pinóquio e suas desventuras (14/07)
A Bela e a Fera (21 e 22/07)

Teatro Luiz Mendonça (Av. Boa Viagem, s/n – Boa Viagem, Recife – PE)
Rapunzel, um conto enrolado (07/07 e 08/07)
Alice no País das Maravilhas (14/07)
Chapeuzinho Vermelho (21 e 22/07)
Aladim, o musical (28 e 29/07).

Teatro Barreto Júnior (rua Est. Jeremias Bastos – Pina, Recife)
Era uma vez na Terra Encantada (07/07 e 08/07)
Violetas da Aurora: o encontro (07/07 e 08/07)
Pocket show: Para Criança meter o nariz (14/07)
Assim me contaram, assim vou contando (21 e 22/07)
O segredo da arca de Trancoso (28 e 29 de julho)

Teatro Experimental Roberto Costa (Paulista North Way Shopping, Rodovia PE-15, 242 Centro, Paulista)
O Pequeno Príncipe (7/7 e 8/7)
Violetas da Aurora: o encontro (14/07)
Era uma vez no fundo do mar (21 e 22/07)
Alice no País das maravilhas (28 e 29/07)

Serviço:
Quando: de 30 de junho a 29 de julho
Ingressos: R$ 30 e R$ 15 (meia-entrada)
Todas as apresentações tem inicio às 16h30

Circuito de Animação
O Circuito de Animação é uma ação social em parceria com Núcleo de Pesquisa em Teatro para Infância e Teatro Joaquim Cardozo. Tem como foco a apresentação de vários pequenos espetáculos com curta duração e de formas animadas. As apresentações serão gratuitas, e o público pode fazer um pequeno circuito para assistir todos os espetáculos (que terão duração máxima de 6 minutos, cada um). Serão apresentados espetáculos em Lambe- Lambe, teatro de objetos, teatro com bonecos e sombras. 

Serviço:
Quando: 22 de julho, das 16h às 17h30

Onde: Teatro Joaquim Cardozo (r. Benfica, 157 – Madalena)
Gratuito

Fonte: FolhaPE